Antonio Brasil e as duas TVs JB

 

Em 29/01/2007, Antonio Brasil publicou um artigo em sua coluna do Comunique-se falando sobre suas perspectivas para a TVJB.

A má vontade “apaixonada” que o jornalista-professor-doutor tem com a TV Brasil me faz ter má vontade com todos os seus textos. O artigo que vou reproduzir não foge à regra (da má vontade) e traz uma dose exagerada de pessimismo com a emissora que ele ainda nem tinha visto, pois nem tinha estreado. Nos comentários apareceram outros profissionais da área chamando o colunista de rancoroso ou preconceituoso, como também é de costume aparecer.

O fato é que, com ou sem má vontade de Antonio Brasil, a TVJB naufragou. Não considero que tenha sido previsível o “naufrágio” pela qualidade da programação apresentada – como é argumento do jornalista, que publicou, posteriormente, um texto intitulado “Troféu Brasil 2007 para o pior programa de TV”, onde, no mais puro tom de “eu já sabia”, dizia que a rede de Tanure era “simplesmente inacreditável de tão ruim”, “muito pior do que se esperava ou se anunciava” (ou do que ELE esperava ou ELE anunciava) e que todos os programas eram péssimos.

Prefiro atribuir o precoce fim da emissora à má fama de Tanure, lembrada nos comentários das colunas de Brasil e da maioria dos textos que leio sobre a CBM, desde antes da estréia de sua emissora de TV. Mas isso é assunto da segunda parte do post sobre a história da TVJB!

Por enquanto, fica o texto do Comunique-se, que mais do que falar sobre um primeiro projeto de televisão para o Jornal do Brasil, ajuda a explicar a decadência do tradicional diário carioca, responsável por sua venda em 2001 para Nelson Tanure.

A TV JB vem aí…De novo!

Antonio Brasil

Nos últimos dias, a mídia brasileira deu grande destaque às promessas do lançamento da Nova TV JB, em março. Em clima de otimismo exagerado, podemos estar diante de mais uma grande jogada do polêmico megaempresário das comunicações, Nelson Tanure. Pelo jeito, a grade de programação da TV está em fase final de montagem, mas já começa mal. Destacamos aqui algumas das principais manchetes:

Boris Casoy vai comandar telejornal na TV JB

Boris e Clodovil na TV JB

Paquita Andréa Veiga faz sucesso na TV JB

A arquiteta Flávia Santoro, irmã de Rodrigo, será apresentadora na TV JB. Ao lado dela, sua sócia, Dani Parreira, filha do ex-técnico da seleção brasileira Parreira. Elas farão um programa sobre decoração. Isabel Wilker, filha do ator e cinéfilo José Wilker, vai apresentar o ‘Cine Revista’, para os que amam o cinema.

“Com a grife da TV JB, Emissora aposta nas idéias que fazem o diferencial da programação criativa”

Será mesmo?

Para mim, essas manchetes representam mais uma trajetória certa rumo ao fracasso inevitável. Uma mistura de tudo que há de pior, mais antigo e decadente na televisão brasileira. A formula não muda. De um lado, velhos, caríssimos e decadentes âncoras com muitos bordões e poucas noticias. Do outro, jovens cujo único talento reconhecido é serem filhos de celebridades.

A Nova TV JB nem entrou no ar e já consegue cometer os mesmos erros que condenam ao fracasso as demais rivais da emissora líder. Pelo jeito, a Globo não precisa se preocupar. Imitar a formula global é o melhor caminho para o fracasso. A Nova TV JB, mais uma vez está condenada sem mesmo ter ido ao ar. E dizem que a história não se repete.

Talvez você não saiba, mas essa tal Nova TV JB não tem absolutamente nada de nova.

Recordar é viver
No início dos anos 70, o
Jornal do Brasil era uma das principais e raras vozes de oposição ao regime militar. Apesar do enorme prestígio, lutava com dificuldades para sobreviver. O clima de repressão, a tradicional e antiquada gestão familiar se somavam a um mercado cada vez mais competitivo. Enquanto isso, seu principal rival, o ascendente O Globo, usufruía dos privilégios de um relacionamento próximo ao governo e dos altos lucros de uma poderosa rede de TV. Naquela mesma época, o JB cometeu graves erros.

A história mais uma vez se repete. Seus responsáveis comprometeram todo o seu futuro ao investir milhões em uma nova, enorme e suntuosa sede na decadente zona portuária do Rio de Janeiro. Esse foi o primeiro de muitos outros erros.

O Jornal do Brasil tinha grande prestígio nacional, mas sua tiragem diária era pequena.. Obviamente, o grande investimento no novo prédio gigantesco não fazia o menor sentido. Outros jornais internacionais de enorme prestígio e tiragem muito maior como o Le Monde na França jamais comprometeram suas receitas com novas grandes sedes. Mas no Brasil, sempre vivemos sob a ameaça de empresários ou governantes com complexo de faraó. Fazem sempre questão de construir pirâmides, capitais desnecessárias ou comprar caríssimos aviões mesmo ao custo da falência quase certa.

Mas havia uma justificativa espetacular para o investimento milionário na sede suntuosa: a TV JB estava nascendo.

Parecia inacreditável, mas Deus sabe como, o Jornal do Brasil tinha ganho a concessão de uma televisão no Rio de Janeiro, o canal 9 da então recém-falida TV Continental. Naquela mesma época, no início dos anos 70, poucas emissoras conseguiriam resistir à crescente competição com a TV Globo e seus poderosos aliados americanos do grupo Time-Life. Muitas redes poderosas como a Excelsior simplesmente desapareciam no ar.

Em clima de grande entusiasmo, muito otimismo e algum segredo, o JB formava uma equipe de profissionais que lançaria uma emissora para enfrentar o poder da ditadura e o poder ainda maior da Globo.

Ao contrário das demais emissoras brasileiras, a TV JB seguiria um modelo europeu com ênfase no jornalismo de qualidade. Naquela época, a nova emissora também representava uma grande promessa de inovação e criatividade. Vários profissionais foram contratados e já estavam na Europa fazendo estágios em grandes redes públicas como a BBC da Inglaterra e a ZDF na Alemanha.

Para nós, jovens produtores independentes, a TV JB também representava uma grande promessa e ainda maior oportunidade. Cheguei a participar de diversas reuniões no famigerado prédio da Avenida Brasil 500, visitei os espaços destinados à TV JB e até conheci o heliporto que seria utilizado pelas equipes de reportagem da nova emissora.

Quantas promessas e esperanças. A grife JB ainda era mágica e garantia até mesmo os sonhos mais impossíveis.

O final dessa história é facilmente previsível. Os planos megalomaníacos dos aristocratas donos do JB se transformaram em dívidas impagáveis. O sonho de uma televisão diferente, inovadora, quase revolucionária virou pesadelo. Com o passar dos anos, o velho jornal foi se afundando, seus donos aristocratas foram morrendo e o grande jornal virou um pequeno e insignificante tablóide. E a TV JB nunca foi ao ar.

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